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PEREGRINAR...
01/10/2010 - Fonte: Sandro Silva Araujo



Uma das mais nobres práticas humanas consegue atravessar os tempos, as diferentes religiões, as modificações tecnológicas e até os processos de massificação cultural.

Essa tradição plena de significados e das mais profundas intenções é a peregrinação. O impulso de se fazer uma peregrinação é tão antigo quanto universal. Os egípcios viajavam para o santuário de Sekket em Bubastis; os gregos procuravam os conselhos de Apolo, em Delfos, e as curas de Asclépio, em Epidauro. Na América pré-colombiana, Quetzal, Cuzco e Titicaca eram locais sagrados. No mundo muçulmano, a "hajj", a viagem obrigatória do peregrino à Meca é um dos Cinco Pilares da Fé. Os budistas aventuram-se até o Bodh Gaya, onde o Buda atingiu a iluminação; os judeus curvam-se em oração diante da Muralha Ocidental do Templo; e os hindus buscam o solo santificado de Varanasi ou banham-se nas águas cheias de cinzas do sagrado Rio Ganges. A tradição católica sempre atraiu os fíéis em direção à Terra Santa e Roma. Porém, a peregrinação como conhecemos hoje, em termos cristãos, ganhou ênfase após a descoberta do túmulo de Santiago, no ano 813 d.C. Em nossa região se fazem presentes as peregrinações a Aparecida, Bom Jesus dos Perdões, Pirapora, Pedra Bela e os Amigos de São Tiago. Num manual de psicologia medieval, John de Burg escreveu: "Contra a acídia, o trabalho físico e as peregrinações a locais santos são benéficos." O termo "Acídia" designa uma forma especial de ansiedade, abatimento, tédio, torpor e apatia que a Renascença rebatizaria, mais tarde, de "melancolia". E o filósofo medieval, Mestre Eckhart, ao descrever a experiência mística, usou a peregrinação como uma metáfora: "O Caminho sem Caminho, onde os Filhos de Deus se perdem e, ao mesmo tempo, se encontram." Esta é, numa frase, a meta de todo peregrino.

PIRACAIA A APARECIDA

Pela primeira vez estarei realizando uma peregrinação. Seremos em 12 pessoas, que deixarão para trás, pelo menos durante esse breve período de tempo (cinco dias) todas as coisas das quais, devemos nos ocupar cotidianamente, durante a peregrinação uma coisa é indispensável e dá significado a tudo: Deve ser o tempo em que se convive e conversa unicamente com o sentido de todo o nosso caminho humano. Por isso, como um retiro espiritual, a peregrinação é um momento em que podemos verificar a nossa vida, ver os nossos projetos e nossas ações. A peregrinação, também exigindo concentração, afasta-nos da tentação do egocentrismo, leva a ter em conta toda a comunidade e une cansaço e contemplação numa única e grande experiência espiritual. Uma imagem de vida encerrada em poucos dias, um tempo no qual, verdadeiramente, tomamos consciência de nós mesmos. Serão aproximadamente 200 km atravessando a Serra da Mantiqueira por estradas vicinais, trilhas, bosques e asfalto, pequenas cidades como São Francisco Xavier, Monteiro Lobato e Tremembé, proporcionando momentos de reflexão e fé, saúde física e psicológica e integração com a natureza. O romeiro peregrino de Santo Antonio da Cachoeira (nome da associação organizadora da peregrinação) vai reforçando sua fé observando a natureza privilegiada entre serras, rios, cachoeiras, pássaros, plantas e antigas fazendas, superando as dificuldades do caminho que é a síntese da própria vida. Aprende que o pouco que necessita cabe na mochila e vai despojando-se do supérfluo. Exercitando a capacidade de ser humilde, compreende a simplicidade das pousadas e das refeições. Oportunidade imersão religiosa ou a obscuridade vital, no desespero da existência sem sentido, longe de Deus… Tudo isso não será obstáculo para uma vivência profunda, humana e cristã. Ao chegar a Aparecida, a certeza de que valeu o esforço, pois a Mãe nos espera, e como tal nos acolhe! As lições do caminho estarão nas pequenas coisas. Surgem como a luz penetrando na neblina, anunciando a chegada de mais um dia. São lições que ensinam algo. Estar consciente em relação aos objetivos do caminho permite a renovação e transformação interior, de hábitos, atitudes, ressentimentos, somatizações, enfim, é… peregrinar.